quinta-feira, 5 de março de 2009

Não esqueçamos do processo histórico
carta aos diretores e aos delegados

"Toda experiência histórica está aberta a várias interpretações e, de fato, é interpretada de várias maneiras"
Ludwig von Mises

"Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo 'sentido'. Este se percebe não nos pormenores da história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. Quem observa aquele conjunto (...) não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos"
Caio Prado Júnior

As simulações são, sem dúvida, uma forma eficiente e inovadora de se aprender sobre o mundo que nos cerca. A SiEM, com seu caráter histórico, permite um aprofundamento nos estudos da história de nossa sociedade através da reconstituição de reuniões que marcaram a linha do tempo.

Contudo, há uma série de reflexões que devem ser consideradas para que não cometamos sérios erros didáticos. O perigo que futuramente poderá nos acometer é o de enxergarmos todo o processo histórico como fruto da ação de indivíduos ou de determinadas cúpulas.

Como todos podem muito bem perceber, a SiEM tende para a chamada “gabinetização”, ou seja: a cada dia se dão passos em direção ao abandono das simulações ligadas a Organização das Nações Unidas - caminhando rumo à estruturação de comitês com um número menor de órgãos diplomáticos e ao aumento de representações de indivíduos que marcaram a história. Ocorre que, seguindo essa tendência, podemos começar a acidentalmente adotar a visão de que a história se move como conseqüência da vontade de poucos indivíduos reunidos em pequenos gabinetes.

Cometer esse erro seria condenar uma simulação que, desde seu surgimento, se propõe um núcleo de excelência acadêmica. Portanto, seja na redação de seus guias de estudo ou na pesquisa para determinada representação, diretores e os delegados devem atentar para importância de todo o contexto e estrutura histórica do momento simulado. As idéias do momento, a composição das forças políticas e toda base sócio-econômica e cultural do período em que a simulação ocorre devem ser consideradas como variáveis importantíssimas no desenrolar do momento histórico.

Devemos, no entanto, fazer uma ressalva fundamental: pecar por considerar os indivíduos como a força motriz da história é tão grave quanto pecar por ignorar a importância dos indivíduos e de suas ações como agentes históricos. Considerar que as estruturas sociais e econômicas condenam a história a se desenvolver de uma forma ou de outra é cair no fatalismo sem sentido; é transformar o homem em servo alienado de sua realidade e, ainda, é condenar a lógica humana a imposições externas. Se há uma estrutura é porque há homens, e só temos indivíduos porque existe uma base social para moldá-los: há uma relação mutua de influencia entre indivíduos e sociedade.
Nossa intenção não é afirmar que qualquer um dos que participam da organização de modelos acredite que a história se mova apenas puxada por indivíduos; esse paradigma já foi superado há mais de sete décadas. No entanto, devemos evitar que uma tendência – a de “gabinetização” de certos modelos – motivada por uma série de questões não relacionadas à filosofia do desenvolvimento histórico acabe por nos influenciar sem que percebamos.

Por fim, julgamos ser importante dizer que as linhas acima não se pretendem norteadoras de qualquer ideal da SiEM. Quando se fala de excelência acadêmica se fala também de se desapegar de bases dogmáticas. Para sermos intelectualmente honestos devemos ter a possibilidade de romper com algumas das certezas mais bem estruturadas de nosso mundo – mesmo que seja para as revalidar no momento seguinte. É fundamental que deixemos que cada um construa sua própria cosmovisão. A doutrinação, portanto, não esta em pauta.


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